Governador do Rio avalia as medidas tomadas na sua gestão e revela o cenário que vislumbra ao término de seu mandato

Rio - As três Bíblias e o pequeno 'santuário' que mantém no gabinete podem sugerir que o governador Luiz Fernando Pezão (MDB) se apega à fé para enfrentar a maior crise da história do estado. Depois de dizer que as Bíblias foram presentes de pastores como Silas Malafaia, esboça raro momento de sorriso: "Tira foto minha também com os santos para eu ficar bem com os católicos", diz, dirigindo-se para um criado-mudo com uma dezena de imagens, que também lhe foram dadas. Depois de tomar medidas austeras e impopulares para conseguir a tão esperada ajuda financeira do governo federal, acredita que o pior já passou. "Eu não gosto de olhar pelo retrovisor", prega. Apesar disso, ressalta que ainda precisa ajustar a previdência do estado.

Pezão avalia as medidas tomadas na sua gestão e revela o cenário que vislumbra ao término de seu mandato. Após a assinatura do acordo de recuperação fiscal com a União, o governador busca empréstimos previstos no plano para a retomada de investimentos no Rio.

 

Quer levar saneamento para a toda a Baixada Fluminense, "universalizar a água na região". Diz que esse será um dos principais feitos do governo. O governador também quer terminar obras da Linha 4 do metrô. Contrário a críticas feitas pelo Ministério Público Estadual, pede mais "autonomia" e liberdade para usar a verba como quiser. Para arrecadar mais, pretende modernizar a Secretaria de Fazenda, com foco no combate à sonegação. Ele diz que quem foi contra a concessão de isenções fiscais a empresas, uma das medidas mais polêmicas de seu governo, "prestou um desserviço ao estado".

Pelo menos duas vezes por semana, Pezão conversa por WhatsApp com o correligionário que deve se candidatar à sua sucessão, o ex-prefeito Eduardo Paes. O governador não acredita que Paes mudará de partido por conta do desgaste no MDB. "Não vai melhorar em nada a situação dele. Não vai afastar a amizade que ele teve com o Sérgio (Cabral), comigo e com o (Jorge) Picciani".

O DIA: Em meio a tantas dificuldades para tocar o estado, o senhor se arrepende de alguma atitude? O que faria se pudesse voltar atrás?

PEZÃO: Eu não gosto de olhar pelo retrovisor. Mas se eu pudesse prever uma crise desse tamanho teria pedido mais esforços das categorias na Previdência e antecipado o aumento da alíquota previdenciária de 11% pra 14%.

O senhor ainda tomará medidas nesse sentido?

Dependo muito da Reforma da Previdência.

Quais são as suas propostas?

A questão da idade. Me preocupa muito saírem (do serviço público) com 48 anos de idade. É um país em que se está vivendo mais, graças a Deus, e não dá mais para sair com 48 ou 49 anos de idade. A reforma tem que ser aprovada com urgência. Entre os governadores, eu sou o que mais perturbo o (presidente da Câmara) Rodrigo Maia (para votar).

Uma das suas prioridades para o último ano de governo é a conclusão da Estação Gávea da Linha 4 do metrô, mas o Ministéio Público do Rio sustenta que não é possível remanejar verba de empréstimo para a obra.

Definir como usar o dinheiro é trabalho meu. Para que serve o governador, se eu não posso usar a minha criatividade? Aí, o MP está querendo saber de onde é que eu vou arranjar o dinheiro. As aduelas estão lá paradas, apodrecendo...

O MP alega que é necessária a autorização do Poder Legislativo.

Se é para pedir, eu peço, mas como pode querer impedir a obra? Isso é um absurdo. Impedir de ter três mil trabalhadores ali.

Quais são suas outras prioridades neste último ano de governo?

Tem os trens do metrô e os da SuperVia que a gente quer entregar, com o empréstimo do Banco Mundial. Água em toda a Baixada Fluminense. Vamos universalizar a água. São R$ 3,4 bilhões em empréstimos para as obras. Vamos inaugurar a Le Cordon Bleu (rede francesa), a primeira no Brasil. Tem o Museu da Imagem e do Som, que vou retomar a obra com o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Estamos retomando esses empréstimos e o contato com o Banco Mundial, com o BID, todos os organismos internacionais. Dentro do programa de IPVA, quero fazer manutenção de estradas e ajudar os municípios.

E em relação a investimentos na Segurança Pública?

Tem a modernização das viaturas da Polícia Militar. Isso já passou no TCE e vai licitar agora. São R$ 63 milhões para a compra de novas viaturas. Tem o Fundo Estadual de Segurança que criamos e será o maior legado que vamos deixar. Daqui a um tempo esse fundo será super-reconhecido porque a cotação do (barril de) petróleo está subindo e vai deixar um dinheiro importante pra Segurança.

Recentemente, uma falha fez com que um helicóptero da Polícia Civil quase atingisse PMs no Jacarezinho. O secretário de Segurança, Roberto Sá, falhou?

Não. É muito difícil tocar a Segurança no Rio de Janeiro com menos sete mil homens. A gente perdeu quatro mil PMs, porque em média dois mil PMs se aposentam por ano. Não tive condição de pagar RAS de outros três mil. A perda é muito grande.

O secretário será mantido?

Claro. É um grande profissional. Ele era o braço direito do Beltrame. Sempre trabalhou muito.

Dados do Instituto de Segurança Pública mostram aumento expressivo no roubo de cargas nos últimos anos. Como convencer um empresário a investir no Rio?

Muitos estão vindo. Tivemos a Ambev ampliando em Cachoeiras de Macacu. Em Seropédica, BRF (Sadia e Perdigão) está vindo. Os hotéis estão bombando. Mesmo com a mídia mostrando todo dia violência, foi o maior turismo interno no Réveillon. Conseguimos a integração com o governo federal, porque todas as entradas para o Rio são por rodovias federais. Os postos da (Via) Dutra, da Rio-Santos, da Rio-Petrópolis e Rio-Teresópolis estavam todos abandonados. Ponte Rio-Niterói é federal. A GLO (Garantia de Lei e Ordem) me possibilitou ter 380 guardas rodoviários aqui e que estão fazendo cair o roubo de carga.

Impedir a entrada de armas e drogas no país é atribuição do governo federal. Há falhas?

Não há falha. Eles estão investindo muito... é uma área muito grande. O Exército está preocupado. O que eles estão apreendendo (de armas e drogas) é muita coisa.

E a atuação das Forças Armadas aqui no Rio? A população critica, acha que poderia ser mais atuante.

Não é o papel deles (patrulhar as ruas). Eles não têm que ficar, como ficaram, no Alemão. Eles têm nos ajudado muito. Participam de todas nossas reuniões no Centro de Comando e Controle. A inteligência deles é excepcional.

O ex-governador Sérgio Cabral vem lhe criticando, em depoimentos à Justiça, atribuindo os problemas do estado à sua gestão. Acha justa essa afirmação?

Ele é um cidadão comum... Eu queria ter tido a sorte dele de pegar o preço do barril do petróleo a US$ 115, e o Brasil crescendo a 7,5%. Só que eu peguei menos 8% (de crescimento) e com o barril do petróleo a 28 dólares. Mas eu o respeito muito porque, pô, eu participei de conquistas dele. Ele deixou políticas públicas implementadas que foram importantes. A volta do diálogo com o governo federal. Eu lembro que com o (ex-governador Anthony) Garotinho era uma briga com o governo federal. Isso acabou.

O senhor se decepcionou com o Cabral por conta das críticas?

De maneira nenhuma. Nada me decepciona. Quem está num cargo desse, como vai se decepcionar? Tomo pancada de manhã, de tarde e de noite. Mais uma, menos uma...

O senhor foi braço direito do Cabral, vice na gestão dele e também secretário de Obras. O senhor nunca desconfiou de nenhum dos casos de corrupção revelados nos últimos anos?

Sou uma pessoa que cuidava muito desse relacionamento ao lado da Dilma. Eu ficava mais em Brasília. E fazendo as audiências públicas. Meu trabalho era viabilizar as intervenções desses complexos. Fui ao ministro (da Justiça) Fernando Torquato, que era ministro da Transparência na ocasião, e pedi uma inspeção especial em todas as obras. Quando eu vi aquelas manchetes do TCE nos jornais — esse TCE que o conselheiro deu lá 30% do superfaturamento do Metrô, Maracanã, no PAC —, eu fui ao ministro Torquato e pedi inspeção especial. E tenho certeza. Nós estamos comprovando que nossos preços estão dentro do que TCU e CGU aceitam.

Ou seja, na época do Cabral o senhor ficava atribulado com as questões de Brasília e não focava tanto nas obras, no que acontecia no estado?

Claro, eu era a pessoa que tocava tudo, que viabilizava recursos. Liberar é algo difícil pra caramba. Não há recurso que tenha sido liberado para os PACs de favela que não tenha sido auditado pela Caixa Econômica Federal. Foram publicadas matérias seguidas falando sobre o Maracanã e também sobre incentivos fiscais. Isso é a maior balela... Os incentivos permitiram 200 mil empregos e aumento de arrecadação. Como é que se paga aos Poderes? Tudo vem de arrecadação.

Mas muitas críticas aos incentivos são as contrapartidas. Seriam gerados poucos empregos perto do que o estado deixa de arrecadar com as empresas.

É discurso de oposição. Esses caras da oposição vão ganhar estátuas no Espírito Santo e Minas Gerais pelas empresas que eles levaram pra esses estados. Se não fossem os incentivos, você acha que a Nissan ia ficar em Resende ou ia pra Lorena (SP), como sempre foi? Esses caras (da oposição) junto com TCE prestaram o maior desserviço ao Rio de Janeiro.

Mas uma crítica que não partiu da oposição e sim de um correligionário, o presidente da Alerj, Jorge Picciani (preso preventivamente), foi o aumento para o funcionalismo que o senhor concedeu antes das eleições de 2014. O senhor se arrependeu? 

Não me arrependo. E não teve nenhum deputado que votou contra, inclusive de oposição. Todo mundo chegou aqui com seu Plano de Cargos e Salários debaixo do braço. E vou dar mais um dado: o Rio é o 26º estado que gasta proporcionalmente com ativos entre os 27 estados. Os salários do Executivo estavam defasados. São as piores remunerações. Compara com o MP, TCE, Alerj e TJ. Vê o salário de um engenheiro do TCE e de um do Executivo. 

O plano de recuperação fiscal prevê empréstimo de R$ 250 milhões para a modernização da Secretaria de Fazenda. Como isso vai melhorar a arrecadação?

Vamos colocar barreiras eletrônicas onde a gente quer combater entrada de armas e munição. E também combater a sonegação. Isso pode aumentar muito a receita. 

Onde serão instaladas?

Na Via Dutra, Rio-Santos, Rio-Petrópolis, Ponte Rio-Niterói e RioTeresópolis. As concessionárias que administram vão ajudar.

Por conta da prisão das figuras mais importantes do seu partido, o MDB, há um risco de debandada de vereadores e deputados. O senhor pretende atuar para evitar essa revoada?

Não sou importante, não. Acho que hoje eu tiro voto. Mas o MDB vai ser forte, é o maior partido. Qual legenda não tem problema? Falaram que o Paes ia para o PTB... olha aí o problema do PTB agora. Vai para o PP? Todo partido tem problema.

Por algumas vezes, Picciani e o senhor divergiram com relação aos rumos do governo. Chegou a visitá-lo na prisão? Ou visitou Paulo Melo e Edson Albertassi?

Não. Ninguém. Até porque tem muitos processos em que eu estou. Com relação ao Picciani, eu nunca demonstrei nenhuma diferença. Ele que mostrava. Nunca passei recibo. Ele é presidente do partido, não me queria vice do Sérgio, não me queria candidato a governador... Mas quando fui candidato, coordenou a campanha. Quando cheguei com o plano de recuperação fiscal, ele foi presidir a Alerj doente. Tenho que respeitar.

Como o senhor se sente vendo seus aliados políticos presos? Foram justas as prisões?

Me sinto triste. E não vou julgar se foram justas, isso é da Justiça, e eles têm o direito de se defender. Não quero que não apurem nada. Sou contra o vazamento de delações, sou contra jogar os nomes das pessoas sem dar direito à defesa. Primeiro te enxovalham e, depois, te dão o direito de defesa. Do que adianta? 

O senhor foi delatado...

A minha família passou um fim de semana vendo a delação do Renato Pereira (marqueteiro), e no final do vídeo ele fala: “O Pezão não pediu nada”. Será que ninguém viu isso? Essas coisas que doem...

Fonte: odia.ig.com.br